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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

As paisagens perenes de Burle Marx e Villa-Lobos


As efemérides são datas especiais que, em princípio, servem para marcar fatos importantes da história. Etimologicamente, efeméride relaciona-se a efêmero, isto é, algo passageiro, transitório. A comemoração do centenário do artista plástico brasileiro Burle Marx (a 4 de agosto de 2009) não só tem essa característica, como também a sua magnânima obra. Pelo menos é assim que artistas de seu nível são vistos no nosso país, tal qual o maestro Heitor Villa-Lobos. Advindos de um mesmo movimento cultural, o Modernismo, ambos são representantes de uma revolta sobre o que se entendia por arte brasileira até então — um modelo importado e sem originalidade. Todavia, a importância dada a suas obras não é devida, e sua lembrança só ocorre em datas marcantes como essa.

O mercado editorial e televisivo ganha com vendas de livros e programas especiais nesses momentos. Um paliativo na tentativa de inserir no popular algo que já é popular por natureza. Villa-Lobos fazia música dita erudita, mas operava uma música essencialmente folclórica. Composições como Cirandas são revisitações ao cancioneiro do Brasil que resultam em uma complexidade não imaginadas na simplicidade dessas músicas. Sua obra mais famosa, As Bachianas, é inspirada em Johann S. Bach, considerado por Villa-Lobos um grande folclorista da música.

As formas e sons da natureza também são tônica na obra de Villa Lobos, bem como na obra de Burle Marx. Criador de um paisagismo genuinamente brasileiro, o artista rejeitou concepções requentadas da Europa ao adotar curvas sinuosas e contornos orgânicos em suas obras. O jardim brasileiro ganha tom em espécies nativas e espaços convergentes. Na mesma medida, a música de Villa-Lobos transpõe esses traços e refuta uma base européia. Assim como um cronista (nada mais que popular), o maestro registra musicalmente o país que vê e que ouve, caso dos timbres ferroviários em O Trenzinho Caipira e da polirritmia convergente de algumas das supramencionadas Cirandas.


Com exposição no MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) e reconhecido em todo o mundo como o maior compositor brasileiro, o paisagista, bem como o maestro, ainda são datas de calendário para maior parte do país que lhes inspirou. Rejeitar modelos consolidados pela importação é o primeiro passo para uma arte de sumo popular que não dá sabor a casca. Buscar uma identidade brasileira é se embrenhar nos complexos biomas do nosso território de manifestações artísticas. A tarefa de Villa-Lobos e Burle Marx foi árdua e o resultado, vultoso, mas o temporário espaço da data comemorativa é inversamente menor ao tempo que levaram para serem reconhecidos grandes artistas brasileiros.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

As chuvas da roseira

Chuva é sempre igual: fisicamente, não passa de água que cai do céu. Mas artistas preferem hipóteses a teses; não crêem que algo como a chuva seja, simplesmente, água que cai do céu. Que o diga Tom Jobim, autor da canção “Chovendo na Roseira”, faixa 13 do álbum “Elis & Tom” (Philips, 1974). Valendo-se de um clássico compasso, Jobim dedilha a viagem da água junto de Elis, que aproveita toda a vocalidade das sílabas. A cantora deve ter inspirado Kevin Mahogany e seu consonantal inglês. Explica-se aí os solfejos do jazzista na sua versão para “Chovendo na Roseira”. Passeando por diversas notas, ora junto do piano, ora junto do saxofone, Mahogany lidera os ataques e a condução de Double Rainbow no álbum homônimo de 1993. Afastadas por alguns anos, as canções contam histórias diferentes de uma mesma chuva.



As peculiaridades de cada versão se mostram a cada técnica usada. Mahogany canta tal qual um líder de big band, muito embora tenha mais suíngue — próprio à sua escola de scat singers, cuja mestra é Ella Fitzgerald. Sua voz de barítono intenta em chefiar os espaços dos acordes, mas a suavidade dá sutileza às camadas Voz e Instrumentos. Assim, a chuva se abre a cada vez que Mahogany sobe e desce o tom. Do baixista ao baterista, toda a banda trabalha em improvisos momentâneos que prescindem um perfil melódico — e muitas vezes ela se perde entre manobras e virtuoses, diminuindo o laço com a música original. A roseira é alvo de gotas suaves e diversas, advindas em boa parte da força do piano de Kenny Barron, livre e insistente a cada virada. Mais solto, ainda que nem tão certeiro e dosado quanto o de Jobim.

De qualquer maneira, são ataques leves que não machucariam uma flor. Toques certamente inspirados, também, na bateria de Paulo Braga, nas cordas de Hélio Delmiro e no teclado de César Camargo Mariano. O trio é parte do quadro de músicos que acompanham Elis e Tom no álbum, arranjado por Aloysio de Oliveira. Em Chovendo na Roseira, Tom Jobim brinca com os pingos de início; faz deles respingos como as pinçadas de Tico-tico; e deságua num riacho de notas, onde as gotas e notas úmidas já não são mais de Luísa, Paulinho ou João; são de ninguém. O perfeito casamento de letra e música formando canção, sempre embalado pela idílica flauta doce, emulada no piano elétrico. O violão em contra-tempo e o tímido baixo são os maiores resquícios — aqui, mais como vícios do início em João Gilberto e no Cool Jazz — da outrora vanguarda Bossa-nova.



A originalidade criada sobre um repertório básico, no caso a valsa em 3 por 4, é tônica não só de Chovendo na Roseira, mas sim de todas as faixas do disco Elis&Tom. Por sua vez, Mahogany podia chover no molhado e prezar por uma releitura fiel em detrimento de uma nova roupagem à canção, mas não o fez. Assim como Tom, percebeu que uma chuva não é uma só para um artista, mas quantas quiser contar, tocar e cantar.

*Crítica escrita para o curso "Crítica e música: uma reflexão sobre as artes da imprensa" e postada com as devidas e pertinentes correções da professora Liliana Bollos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Festival da Boa Música

É ritmo de festa! Festa em silêncio, pois já basta a sua época de adolescente “badernista” fazendo zona na sala de cinema. A festa é nessas salas, tamanha quantidade de festivais que se projetam por aqui: Panorama Francês, SP Terror, Latino-Americano e o InEdit Brasil, que acabou a 5 de julho aqui em sampa. A cidade já é parte do itinerário de muitos festivais que correm o mundo, mas ainda há o que melhorar em termos de divulgação, expansão do circuito, preços e eventos adjacentes. Que seja: alguém aí já disse que pra começar uma caminhada é preciso o primeiro passo — ainda que não tão preciso.


Mas foi um tiro certeiro trazer o InEdit pra cá. Iniciado em Barcelona, o festival junta a fome com a vontade de comer: cinema e música. Documentários musicais dão a cara nas telas e participam também de competição — como aniversário de loja,“onde quem ganha é você”. Somam-se a esse motivo os feromônios sonoros exalados pelo Brasil e, em especial, por São Paulo e os filmes sobre música e artistas que pululam nos teasers (de Ratos de Porão a Arnaldo Baptista). O tiro foi em cheio, lembrando o logo do Public Enemy, tema do filme cujo subtítulo é Welcome to Terrordome.

O Public Enemy são caras maus. Eles não acreditam na Malu Magalhães nem no Arctic Monkeys. Não acreditam no Bush nem na Guerra do Iraque. Não acreditam no Elvis — e desconfio que nem no Michael Jackson. Mas não são maus por que são niilistas. São maus porque descrêem de tudo isso com argumentos e samples que revolucionaram o hip hop. Isso fica visível com o loop inicial em “Show’em Watcha Got”, tocado logo no início do filme e com a letra de “Don’t Believe the Hype”: um não é a marcação do tempo fria e sem graça, o outro não são palavras regurgitadas, mas um mantra repetido. A revolução do PE, contudo, para por aí. Ainda que ela exista na maioria das canções do grupo, o diretor Robert Patton-Spruill parece ter se esquecido disso na fita. Pouco se fala de como o Public Enemy alçou o rap pra fora dos guetos justamente por entenderem e criticarem o mundo fora dali. Este é o outro alicerce para as mudanças drásticas no gênero, levadas a cabo também por Beastie Boys e por Run DMC.



A sonoridade dessa leva influenciou não só o hip hop, mas o rock e a música eletrônica. Samples dos BB são base em muitas pick-ups. A sonzeira em overdrive do PE ecoou em um dos guitarristas mais originais do fim dos anos 90, Tom Morello, e é impossível dizer que o som do RATM não é fruto direto dessa mistura de rap, rock e outras cositas más. É a marca de Terminator X e toda a banda do PE, inclusive os SW1, os B-boys fardados. Apresentar a banda com depoimentos variados e entrevistar outros músicos com certeza foram o trunfo do filme, que peca por vezes em cortes inexplicáveis e por mostrar apenas um show de Chuck D e companhia, o do SWSX de 2004.

Em favor de uma crueza maior, Welcome to Terrordome é uma fita que não preza pela estética dos detalhes ou pelos planos para delimitar o produto documentário. Segue a mesma linha de outro doc assistido por quem vos escreve: End of the Century. Enquanto o primeiro tem a banda no título, neste acontece o contrário. Explica-se: se para o historiador Eric Hobsbawm o século XX começa em 1914 e termina em 1991, para os Ramones ele começa ali nos anos 50 e acaba em 77, ano da explosão da explosão da banda e do punk rock. Mas é nesse ponto que ele recomeça, como um ciclo, como fruto de uma luta entre classes — pois não era o punk, originalmente, válvula de escape para os proletariados e marginais britânicos? O documentário que conta a trajetória da banda de Joey, Johnny, Dee Dee, Tommy, Marky e CJ traça todo um enredo do movimento criado e criador da banda, bem como de seus reflexos históricos. Não economiza, para isso, em depoimentos e cenas de arquivo.



O ingresso vale só por ver Joe Strummer mencionando os Ramones com o mesmo respeito com o qual Johnny lembra do Clash. É prazeroso saber que, embora separados por um oceano e muitos, muitos acordes, as duas bandas dividiam histórias do underground. E ainda hoje se pergunta (e se responde e se pergunta mais) como um movimento cultural pôde sair dos subúrbios e influenciar inúmeras manifestações, artísticas, não só na música, ou de qualquer outro cunho, tal qual a publicidade, como bem lembra uma atendente do CBGB no filme. O bar é cenário para uma das melhores seqüências do filme: quando os Ramones discutem, sobre o palco, qual música tocar. Dee Dee, que mais lembra um Gil Brother misturado com Sid Vicious, insiste na sua escolha. Joey não quer. Johnny manda calarem a boca. Tommy... bem, Tommy não era essencial pra banda — segundo Johnny e Dee Dee. Entre fucks e shits eles resolvem por tocar Blitzkrieg Bop.

As imagens antigas e as diversas entrevistas dão um panorama cronológico da banda, e a montagem consegue transmitir o tempo sem tornar-se maçante. A sucessão de acontecimentos não é apenas fator contextual: está presente ali a figura de um Joey inibido e retraído em seus um metro e tantos de estranheza; um Johnny carrancudo, que não sorri para manter a aparência de manager; um Dee Dee debochado e vítima do seu próprio deboche; um Marky agradecido e Ramone até hoje. Uma banda que iniciou uma nova era na música, em que a vontade de fazer supera o saber fazer, e que foi capaz (talvez isso seja o mais difícil) de se reconhecer como precursora deste novo tempo. Sem impado, Dee Dee agradece a si próprio pela placa dos Ramones na Rock and Roll Hall of Fame. Com certeza não os únicos, mas sim os maiores culpados por suas poucas notas, cabelos de tigela e jaquetas de couro.

A música agradece aos Ramones e ao Public Enemy. O cinema agradece a música, agora não pelas trilhas ou sonoplastia, mas pelos temas. E São Paulo diz obrigado a todo mundo, porque o cinema está em festa (no lineup, o InEdit, claro) e o importante é fazer uma social.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Ouvindo Frenético

O autor do crime, dessa vez, foi um amigo. A título de proteção não revelo o nome, embora por amizade eu tendesse a revelar. O fato foi que começou com uma frase, "to viciado nessa porra". Quando escuto isso já imagino as cenas. Em todas eu tenho curiosidade — e inevitável. Até perguntar ou experimentar, contudo, há dezenas de passos. Dessa vez eu corri com os dedos e logo perguntei, "qualé a boa?". Ele me passa um link e a merda está feita. Viciei. Sou suscetível demais quando a coisa é boa. Acertei na pergunta e na suscetibilidade. A bola da vez é Soil & "Pimp" Sessions.


Um bando de japoneses (e eu te devolvo a pergunta, Tas: para bem ou para o mal, que água eles bebem?) que se bandearam pro free jazz numa pancada só. Arrisco duas palavras: Freenetic Jazz. Veja bem, não é um rótulo, como Nu Jazz. Pra uma trupe de Tóquio que se conheceu em baladas, tem influências latinas e contam no quadro de integrantes com um agitador, isto é, diferente de vocalista, um rótulo é no máximo um detalhe nas suas roupas extravagantes — de fazer inveja ao Também Sou Hype.

Soil & "Pimp" Sessions já espanta pelo nome. Só consigo enxergar algum significado para Sessions. As canções pairam numa intuitividade que fica entre o aleatório e o caótico. Um, por sabermos as forças que impulsionam os improvisos, advindos de marcações de tempo perdidas no espaço (ou na tempestade, vide Storm); o outro, por nem imaginarmos onde tudo aquilo vai dar, como em Fantastic Planet, que bate num consistente hard bop de Nova Orleãs até cair numa boate em alguma ilha do caribe, tocando salsa ou rumba.


No caso do álbum Planet Pimp, a produção teve o trunfo de usar dosadamente efeitos eletrônicos, como se pode ouvir em Go Next! e The World Is Filled by... . A precaução afasta as canções de um fusion forçado ou ultrapassado. É apenas mais um artifício pra empolgação dos japoneses. Nessa loucura, por vezes eles mesmos se perdem: os arranjos quebram a harmonia ou ocorre tal grandiloquência que vira gritaria. E na hora da calmaria — a última faixa, Sorrow — não fazem mais do que um lounge bem xôxo.

O que interessa é que já carrego no bolso e parei de usar escondido. Não obstante, tô falando pra todo mundo aqui. Escute no último volume, mas depois não deixe sua mãe pensar que foi influência minha.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Congratulações, Coltrane

Se estivesse vivo, John Coltrane faria ontem, 23 de setembro, 82 anos. Trompetista, jazzista e, muito mais, músico e artista, Trane elevou o jazz à erudição com manobras como "Coltranes Changes". Por outro lado, nunca tirou o jazz do seu suporte: o improviso, a intuição. Genial.

Giant Steps: Coltrane brinca com as possibilidades harmônicas


Davis e Coltrane: o melhor do cool jazz


O clássico: A Love Supreme


Bônus: Tito Puente e o swingado bebop Take Five, música tocada por Lisa e Bart no "episódio do jazz" — passou hoje na Globo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Mombojó + China =

Fui ao show do Mombojó e do China, no último sábado (13), no Studio SP. A Dona Guta, felizmente, ainda presenteia São Paulo com boas casas. Caso do Studio, cuja estrutura e ambiente põem mais próximos artistas e espectadores, espectadores e espectadores, espectadores e arte. O requisito básico pra entrar, pelo menos no line-up do mês, é que o artista esteja realmente colado em sua expressão. Aí é baba pro Mombojó. Descobri que pro China também.

Começando pelo sino-pernambucano que nunca tinha ouvido. Acompanhado da HStern Band — de ouro maciço e com lapidação no porvir —, China me estufou duma música digna da galera recifense-olindense. Pois essas são as cidades satélites do melhor rock (só?) que se produz no Brasil. E isso não é de hoje. O Camisa de Vênus foi a ponta de um inselberg. O corpo viria com o manguebeat de Chico, Nação e Mundo Livre. Dali pra frente o vento tomou de conta e fez o favor de espalhar as sementes da boa música. Brotou China, Mombojó, Cordel do Fogo Encantado, Bonsucesso Samba Clube, Eddie, Fóssil, Catarina dee Jah — as duas últimas ainda para serem escutadas pelo blogueiro.

O som de China é cheio de samples e riffs que se confundem. Pode ser electro house, new rave ou o que for: o eletrônico é a face-mor das novas influências, caracterizada pelo abraçar de uma tecnologia e o regurgitar novo desta — como fizera Lúcio Maia nos longínquos anos 90. Parece mesmo uma evolução do New Wave, bem perceptível em Câncer.

Votem no cara pro VMB: http://mtv.uol.com.br/vmb2008/cat_aposta.html


Falando em guitarrista, foi em Asas nos Pés que ouvi a pancada chinesa. Ora fazendo a linha melódica, ora passando o bastão pros samples, a guitarra é de acordes agressivos e intermitentes. Faz o tom potente da música. A bateria não lembra em nada o tambor do Maracatu. Não fosse a marcação de tempo e compasso difusa e quebrada. Pra completar a cozinha, o baixo sutil e, como não se tem visto ultimamente, presente em toda a música. Alicerce das horas necessárias.

Nos pés de China também deve ter algo mesmo, quem sabe asas. O cara tem uma dancinha inigualável, meio Jamiroquai, meio mestre-sala, meio ataque epilético. Tão personna quanto sua cantoria. Simples e voraz, daquela que quer alcançar todo mundo que está por perto sem nenhum floreio. A canção de Roberto Rei Carlos, Não quero mais seu amor, ficou pequena pra ele. Suas composições vem igualmente carregadas de uma megalomania bem chinesa. Na singeleza de cada coisa, como dormir e acordar, cai-se sobre um território vasto de sentimentos e sensações. Maior que a China, esse espaço da poesia é sempre explorado, mas nunca visto em sua infinitude. Tomara que o pernambucano continue nesta aventura, pois ainda há muito o que descobrir. Não só nas letras, mas também na melodia.

Finito o show do China, veio Mombojó. Veja bem, não foi assim: acaba uma coisa, respira, começa outra. Foi de lambuja China + Mombojó. Uma coisa junta na outra e dá nisso. O entrosamento entre os caras só valeu mais o ingresso. Digo que essa turma de meus conterrâneos de ascendência (existe isso?) ainda vai dar muito mais caldo.

Felipe: agora a gente é radiola de ficha?, sobre o esganiçado insistente por Duas Cores.


O show do Mombojó eu já tinha visto numa outra vida deles pra sampa. Foi em dezembro do ano passado, na choperia do Sesc. Dia bom. Logo de cara admirei as possibilidades levadas a cabo pelos caras. Rock novo, samba em toda a sua marcação, a suavidade do sopro, a ecleticidade sampleada. As letras vêm fácil, como em China, sem deixar a poiese. Foi tudo isso que vi em show. Confesso que não foi com todos os watts da primeira vez. Muitas músicas eram do segundo álbum, que não é de muito meu agrado (prontofalei). Nem por isso a performance foi menor. De lá pra cá o que vi foi um trabalho pensado em cima do som, das enes possibilidades — novamente elas. Algumas releituras e novos arranjos. Tudo que amplificasse a sonoridade de Felipe (bom nome) e companhia. Execuções memoráveis como Duas Cores (suplicado pela mina-mala-bêbada), Missa, Faaca O Céu, o Sol e o Mar me fazem esperar ansiosamente a próxima vinda deles.

Mombojó + China = música boa e dança peculiar...

Se todos os shows da noite (três, pra ser bem claro) se resumissem a uma música, seria mesmo a última. Olha que fechar com chave de ouro é difícil. China e HStern Band sobem ao palco para, junto de Mombojó, fazerem a maior concentração de recifenses e olindenses por metro quadrado da Augusta. Tocaram Deixe-se Acreditar. Dessa hora só consigo falar sobre o final, que demorou pra chegar. Que também o final do melhor do rock brasileiro esteja longe. A história da boa música nordestina esteja mais pra um romance que pra um cordel.

Obrigado ao Gian Lucca que gentilmente cedeu as fotos para serem postadas aqui!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Ajudar o peixe...

Vá, nem é uma das melhores músicas do Billy Idol. Ou melhor dizendo, nem é um dos melhores hits do pai do Supla — pobre (ou não) coitado que só se fez de hits após o Generation X. O que pegava nessa música era o refrão: ajudar o peixe... Tinha gente que até apelava e emendava aí o backin' vocal: feche os olhos e vááá.



Nesse caso é uma transliteração do som muito bem sucedida. Afinal, duvido que você escute outra coisa que não seja a súplica ao peixe; caso contrário você sabe a letra — e não vai ser eu quem vai escrever ela aqui!

O cômico é que criaram um site pra isso. Kissthisguy.com só reúne essas confusões entre o que foi ouvido e o que foi escrito. Às vezes a diferença nem é tanta — principalmente em se tratando de profundidade poética —, mas o engano não deixa de ser engraçado.

A começar pela f*dida Purple Rain, cujo verso (Excuse me, while I kiss the sky) dá nome ao site. Ali tem mais um monte.
O Rock the Casbah do Clash virou Lock the Taskbar. O wannabes (de Pretty Fly for a White Guy) do Offspring virou one-eyed peas. Enquanto isso, o drama do REM, It's me in the corner/It's me in the spotlight, dá lugar à chanchada Let's pee in the corner, let's pee in the spotlight.

A língua do Tio Sam — e a nossa também — é cheia dessas malandragens (mode boça). De vez em quando dá nisso e noutros:



Último vídeo do anderssaruo.com


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Now playing: Stan Getz, João Gilberto, Astrud Gilberto - O Pato
via FoxyTunes

domingo, 20 de abril de 2008

Voltei, nem tão cedo, mas voltei!

Finalmente os brasilienses do Móveis vieram pra sampa e pisaram em solo Uspiano, cumprindo rumores de algum tempo atrás.

Movéis Coloniais de Acaju no Festival Alternativo da POLI - USP, dia 19 de abril.



Como diz o subtítulo, foi um festival. Das bandas que passaram, porém, eu estive presente no Motocontínuo, no duo freak Montage e a miscelânea do Móveis. Queria ter visto o Hurtmold e dedicarei mais espaço aqui para o Móveis Coloniais de Acaju.

No Motocontínuo eu só estive presente em corpo. O suficiente pra ouvir pouco da banda e alguns rumores não muito favoráveis ao som dos caras.

O Montage chamou a atenção e cumpriu a proposta. A sonzera eletrônica da dupla espantava quem não estivesse acostumado, mas não deixava de fazer as pernas se mexerem — e o movimento contido das pernas se multiplicava por mil pra galera "na vibe" da frente do palco.



Fico feliz por ter visto que o Cansei de Ser Sexy tem rendido algo aqui no Brasil também. Como disse o Lúcio Ribeiro, dá pra fazer um som no Brasil sem ter nada brasileiro impregnado. E isso não é no sentido pejorativo, não na leitura do impregnado. Talvez seja pejorativo pensar que a tal da globalização dos anos 90 não vai sumir mais — nesse caso cada um pensa como quer. No
last.fm, contudo, pediram Montage na Inglaterra. É o hype? E eu to com "I trust my (fuckin) dealer" na cabeça...

E vamos ao Móveis! O show mais esperado, sem dúvida. A espera tinha sido longa até então. As filas da cerveja faziam brotar pessoas e metros, a rotatividade do público já era alta e a demora começava a encher o saco. Os brasiliense, enfim, subiram ao palco.
Abriram com uns lados-B da banda (como assim? lado-B duma banda que nem tem Coletânea/Perfil! É o hype (?) ), mas não deixaram de empolgar lodo de início.


Os metais como a flauta e o sax foram comprometidos pela estrutura, não tinha jeito. Os caras são uma big band tocando num palco razoavelmente pequeno. O engenheiro de som fez milagre pro teclado aparecer junto dos trompetes, com um pouco de ajuda da acústica do local. Felizmente o resultado foi bom.

Onde estive pulularam bates-cabeça com tentativas mais afoitas de moshpit, nada que não fosse abortado. Quando tocaram Seria o Rolex a galera pulou como nem parecia na melancolia da letra — e da melodia, em parte: ninguém mais acha que lembra Unchain My Heart do Ray Charles? Falando em Ray, eles mandaram junto da galera um Hit the Road Jack, suave e bem levado.

Algumas músicas novas prometem. Não me recordo dos nomes, nem muito das músicas. O que tenho certeza é que elas continuam bem desenhadas, com a conversa sutil do sax-trompete e baixo-teclado, ao estilo Móveis Coloniais que vem se formando. Não esqueci também da solada do batera. Simples e entremeada pela pegada ska.
Os pontos altos foram deixados pro fim. O riff de Copacabana fez a galera cantar em uníssono. Apesar do som meio "sobreposto", a execução foi bem legal. Os instrumentistas desceram do palco e fizeram aquela coreografia com a galera. Impagável. Só quem esteve lá mesmo.

Móveis Coloniais de Acaju representaram a cena alternativa. Ou melhor, a cena da música como alternativa pra tanta coisa ruim que tem se ouvido. Pois é, alternativo é aquilo que se chamou underground por um tempo, agora se chama indie e depois sabe lá deus (ou alguma gravadora) o que vai ser.